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Poucos temas tecnológicos geram tanto fascínio e tanta confusão ao mesmo tempo como a computação quântica. Para muitos gestores e empreendedores portugueses, o assunto ainda parece pertencer ao universo da ficção científica — uma promessa remota reservada a laboratórios universitários e a gigantes tecnológicos com orçamentos de investigação incompreensíveis.

Esta perceção está a ficar desatualizada rapidamente. Em 2026, a computação quântica saiu definitivamente do laboratório e entrou na agenda estratégica de empresas, governos e investidores. Portugal, longe de ser um espetador passivo nesta corrida, está a posicionar-se de forma crescente no ecossistema europeu de tecnologias quânticas. E as implicações para o tecido empresarial nacional — tanto as oportunidades como os riscos — são mais imediatas do que a maioria imagina.


O que torna a computação quântica diferente

Para perceber porque esta tecnologia importa, é necessário compreender o que a distingue dos computadores que usamos hoje.

Os computadores clássicos processam informação em bits — unidades que assumem o valor 0 ou 1. Um computador quântico opera com qubits (bits quânticos), que, graças a princípios da física quântica como a superposição e o entrelaçamento, podem existir em múltiplos estados em simultâneo. Isto significa que, para determinadas classes de problemas, um computador quântico consegue avaliar um número exponencialmente maior de combinações em paralelo do que qualquer computador clássico poderia processar sequencialmente.

A consequência prática não é que os computadores quânticos vão substituir os portáteis e telemóveis do dia a dia — não vão, pelo menos a curto prazo. A sua força está em problemas de uma complexidade específica: otimização com múltiplas variáveis, simulação molecular, análise de grandes volumes de dados financeiros, descoberta de novos materiais e rutura de sistemas criptográficos. São precisamente estes os problemas que mais custam a resolver nas indústrias farmacêutica, logística, financeira e de defesa.


O posicionamento de Portugal no ecossistema europeu

Portugal está a construir, de forma gradual mas consistente, a sua presença no ecossistema emergente das tecnologias quânticas. A colaboração entre universidades, centros de investigação e empresas tecnológicas está a acelerar a preparação de talento e de infraestruturas, permitindo ao país integrar iniciativas europeias de soberania tecnológica.

Um exemplo concreto: a Altice Labs integrou recentemente o projeto europeu IBERIANQCI, uma iniciativa que vai ligar Portugal e Espanha numa rede de comunicações quânticas. O objetivo é criar infraestruturas capazes de proteger informação sensível com um nível de segurança que as tecnologias atuais não conseguem garantir. O projeto posiciona Portugal como nó ativo da futura infraestrutura de comunicações quânticas europeia.

Portugal participa igualmente no EuroQCI — a rede europeia de comunicações quânticas — que está a ser desenvolvida com o objetivo de proteger infraestruturas críticas e comunicações governamentais contra ameaças futuras, incluindo as que derivam de computadores quânticos suficientemente avançados para quebrar a encriptação atual.

A nível europeu, a Comissão Europeia apresentou em julho de 2025 uma estratégia ambiciosa para a Europa se tornar líder mundial nas tecnologias quânticas até 2030. A estratégia incide em cinco domínios: investigação e inovação, infraestruturas quânticas, reforço dos ecossistemas, tecnologias de dupla utilização e competências quânticas. Em 2026, será criada a Academia Europeia de Competências Quânticas, para formar profissionais especializados e responder às necessidades do setor. Até 2040, o setor das tecnologias quânticas deverá exceder um valor global de 155 mil milhões de euros e criar milhares de postos de trabalho altamente qualificados em toda a UE.


Onde o impacto já é real: os setores a observar

A computação quântica não vai transformar todos os setores ao mesmo tempo nem da mesma forma. Os casos de uso mais maduros e com maior potencial de impacto para o contexto empresarial português incluem:

Farmacêutica e ciências da vida

A simulação de moléculas com precisão quântica promete revolucionar a descoberta de novos materiais e a criação de fármacos mais eficazes, reduzindo drasticamente os ciclos de investigação e desenvolvimento. Empresas como a Pfizer já exploram a computação quântica para desenvolver tratamentos mais eficazes e personalizados. Para Portugal, com um setor de ciências da vida em crescimento e uma rede de centros de investigação universitária ativa, este é um domínio com potencial de posicionamento relevante.

Logística e otimização de operações

Desafios complexos de roteirização e gestão de cadeia de fornecimento que sobrecarregam algoritmos clássicos estão a ser abordados com computação quântica. A DHL, por exemplo, estima que a otimização de rotas de entrega com recurso a algoritmos quânticos pode reduzir custos em até 20% ao processar variáveis em tempo real. Para empresas portuguesas com operações logísticas complexas — do setor do turismo à exportação agroalimentar — este tipo de ganho de eficiência terá impacto direto na competitividade.

Setor financeiro

No setor financeiro, os computadores quânticos conseguem analisar grandes volumes de dados para prever tendências, otimizar carteiras de investimento e precificar instrumentos financeiros com uma precisão que os sistemas atuais não conseguem atingir. Para bancos, seguradoras e gestoras de fundos, a computação quântica representa tanto uma oportunidade de diferenciação como uma pressão competitiva crescente.

Energia e sustentabilidade

A simulação quântica permite modelar novos materiais para baterias mais eficientes, otimizar redes de distribuição de energia e acelerar a investigação em energia solar e hidrogénio verde. Num momento em que Portugal lidera em energias renováveis a nível europeu, a interseção entre computação quântica e transição energética é uma área estratégica de especial relevância nacional.


A ameaça que as empresas ainda não viram chegar

Mas a computação quântica não traz apenas oportunidades. Traz consigo um risco de segurança com uma característica perturbadora: os seus efeitos podem já estar a ocorrer, sem que as organizações afetadas o saibam.

O problema chama-se harvest now, decrypt later — “recolher agora, desencriptar depois”. A lógica é simples e alarmante: agentes maliciosos — estados com capacidades avançadas, grupos de cibercrime sofisticado — estão atualmente a recolher e armazenar dados encriptados com a encriptação clássica vigente. Não conseguem lê-los hoje. Mas quando os computadores quânticos atingirem capacidade suficiente para quebrar a encriptação atual, todos esses dados armazenados poderão ser decifrados.

O que está em causa é a proteção de dados com valor de longo prazo: documentos regulatórios, registos médicos, propriedade intelectual, algoritmos proprietários, dados de clientes de alta sensibilidade. Qualquer informação que mantenha valor confidencial durante cinco, dez ou quinze anos está potencialmente exposta a este tipo de ataque diferido.

Pesquisas do Capgemini Research Institute mostram que 70% das organizações a nível global estão já a avaliar ou a implementar medidas de segurança resistentes à computação quântica. Ainda assim, quase uma em cada três ainda subestima esta ameaça.

A resposta estrutural é a migração para criptografia pós-quântica (PQC) — um conjunto de algoritmos de chave pública projetados para permanecerem seguros mesmo perante computadores quânticos avançados. O National Institute of Standards and Technology (NIST) dos Estados Unidos publicou em 2024 os primeiros algoritmos PQC padronizados, iniciando formalmente a transição global. Na Europa, os trabalhos nesta área estão em curso e espera-se a publicação de estratégias regulatórias específicas em breve.


Quantum-as-a-Service: o acesso está mais próximo do que parece

Uma das maiores barreiras à adoção da computação quântica pelas empresas era o custo e a complexidade de aceder à tecnologia. Construir ou adquirir um computador quântico permanece fora do alcance da esmagadora maioria das organizações. Mas essa barreira está a ser contornada por um modelo que segue a mesma lógica do cloud computing: o Quantum-as-a-Service (QaaS).

Plataformas como a IBM Quantum, a Microsoft Azure Quantum e a Amazon Braket permitem que empresas, universidades e programadores testem algoritmos quânticos em processadores quânticos reais, através da cloud, sem qualquer investimento em hardware especializado. Esta acessibilidade está a impulsionar a investigação e os primeiros projetos-piloto em empresas de todos os setores.

Para as empresas portuguesas, isto significa que começar a explorar a computação quântica não requer nem grandes orçamentos nem equipas de física quântica. Requer curiosidade estratégica, identificação dos problemas internos que poderiam beneficiar de poder computacional superior, e a disposição para experimentar numa plataforma de acesso em cloud.


O que os gestores portugueses devem fazer agora

A computação quântica encontra-se, em 2026, num ponto de inflexão: ainda numa fase emergente para a maioria das empresas, mas suficientemente madura para justificar atenção estratégica e preparação ativa. As organizações que agirem agora, mesmo que de forma exploratória, terão uma vantagem de aprendizagem considerável face àquelas que esperarem que a tecnologia se “prove” no mercado.

As ações mais concretas e acessíveis passam por três frentes:

Identificar vulnerabilidades criptográficas. Fazer um inventário dos sistemas de encriptação em uso e avaliar quais os dados que, se desencriptados no futuro, representariam danos relevantes para a organização. Esta avaliação é o ponto de partida para uma estratégia de migração para criptografia pós-quântica.

Monitorizar o ecossistema de QaaS. Designar alguém internamente — ou um parceiro externo — para acompanhar a evolução das plataformas de acesso quântico em cloud e identificar casos de uso relevantes para o negócio. Não é necessário implementar nada ainda; basta estar informado e preparado.

Participar em iniciativas europeias e nacionais. Portugal está a integrar projetos europeus de tecnologias quânticas. Para empresas dos setores mais diretamente afetados — energia, saúde, finanças, telecomunicações — acompanhar e participar nestas iniciativas é uma forma de aceder a conhecimento, financiamento e parcerias estratégicas que de outra forma seriam inacessíveis.


Conclusão

A computação quântica não é uma tecnologia para amanhã — é uma tecnologia que já está a moldar decisões estratégicas hoje. Em Portugal, o país está a consolidar a sua participação em iniciativas europeias relevantes, e o talento e a capacidade de investigação existem. O que falta, em muitos casos, é a ligação entre o ecossistema académico e científico e o tecido empresarial.

Os gestores que entenderem mais cedo o que esta tecnologia pode fazer pelo seu setor — e os riscos que já representa para a sua segurança digital — estarão melhor posicionados para competir num mercado europeu onde a soberania tecnológica e a inovação de base científica são cada vez mais fatores de diferenciação real.

O momento de começar a prestar atenção é agora. Não porque o futuro quântico esteja iminente — mas porque a preparação para ele já começou, e o tempo conta.

Categories: Tecnologia

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