web analytics

Existe um erro de raciocínio que continua a colocar milhares de empresas portuguesas em perigo. É simples, está muito enraizado, e é completamente falso: “a minha empresa é pequena demais para ser um alvo”.

Esta lógica pode ter feito algum sentido há dez anos, quando os ataques informáticos eram operações sofisticadas dirigidas a grandes corporações ou infraestruturas críticas do Estado. Em 2026, é uma ilusão perigosa. Os cibercriminosos não escolhem alvos pelo prestígio — escolhem-nos pela vulnerabilidade. E as pequenas e médias empresas portuguesas, com infraestruturas modestas, equipas sem formação especializada e processos de segurança muitas vezes inexistentes, são, precisamente por isso, o alvo preferencial.

Os números confirmam-no de forma inequívoca.

Portugal: um país cada vez mais atacado

Os ciberataques em Portugal aumentaram mais de 716% desde 2019. Não é um erro de tipografia. É um crescimento que coloca o país numa posição de vulnerabilidade crescente num contexto europeu já de si exigente.

Em 2024, foram registados 2.758 incidentes de cibersegurança analisados pelo CERT.PT, um aumento de 36% face a 2023. De acordo com o Hiscox Cyber Readiness Report 2025, mais de metade das PMEs portuguesas sofreu pelo menos um ciberataque no último ano, em muitos casos com repetição de incidentes na mesma empresa.

As consequências financeiras são igualmente alarmantes. Estima-se que os prejuízos anuais decorrentes de ciberataques em Portugal tenham alcançado os 10 mil milhões de euros, um valor que reflete o aumento da frequência e sofisticação das ameaças.

E ainda assim, muitas empresas continuam a tratar a cibersegurança como um custo opcional. Um luxo para quando sobrar orçamento.

As ameaças mais comuns — e as mais subestimadas

Phishing: o vetor de entrada preferido

O phishing continua a destacar-se como o tipo de ataque mais recorrente. Segundo o CERT.PT, este tipo de ataque representa cerca de 84% das ocorrências na perceção dos especialistas, e registou um crescimento de 13% em 2024.

Mas o phishing de 2026 não é o phishing dos anos anteriores. A inteligência artificial evoluiu de uma ferramenta de produtividade para um vetor crítico no universo do crime. As áreas de maior crescimento incluem phishing hiperpersonalizado, gerado em segundos e com realismo cada vez mais contínuo, e agentes ofensivos capazes de executar ciclos completos de ataque, desde o reconhecimento até à exploração.

Na prática, isto significa que os emails de phishing já não chegam com erros gramaticais óbvios, remetentes suspeitos ou linguagem genérica. Um dos exemplos mais marcantes foi relatado pela Europol, envolvendo uma campanha de phishing que simulava comunicações internas de grandes empresas, redigidas em linguagem corporativa perfeita. O que antes era facilmente detetado tornou-se um ataque personalizado, fluente e altamente convincente — difícil até para profissionais experientes reconhecerem de imediato.

Existe ainda uma variante crescente especialmente insidiosa: o email chain hijacking, em que o atacante se insere no meio de uma conversa de email real e legítima. Um caso concreto recente envolveu o gabinete de contabilidade de várias PMEs portuguesas, cuja conta de email foi comprometida e passou a enviar centenas de mensagens “fatura em aberto” a clientes legítimos. A conta do contabilista era real — não havia spoofing. O cliente confiou, clicou.

Ransomware: a ameaça que paralisou empresas inteiras

O ransomware mantém-se como uma das ameaças mais devastadoras para o tecido empresarial português. Os ataques de ransomware dispararam 52% em 2025. Portugal sofreu 28 ataques documentados nesse período. Entre os grupos mais ativos contra PMEs portuguesas em 2025 e 2026 encontram-se o Black Basta, o LockBit, o Akira e o Cactus.

O modelo evoluiu. Já não se trata apenas de encriptar ficheiros e pedir resgate. O ransomware opera hoje em dupla extorsão: o atacante cifra os dados e publica uma amostra num leak site caso o pagamento não seja efetuado. E, tipicamente, o ransomware é apenas a fase final de uma cadeia longa: phishing → acesso inicial → semanas de reconhecimento → exfiltração de dados → cifragem. Quando o ecrã pede pagamento, o atacante já está dentro da organização há semanas.

Ao encriptar sistemas e bloquear o acesso à informação essencial da organização, este tipo de ataque pode paralisar completamente a atividade das empresas. Para uma PME sem backups testados e sem plano de recuperação, o impacto pode ser irreversível.

Ataques DDoS e indisponibilidade de serviços

As redes Wi-Fi inseguras, os sistemas mal configurados e os ataques DDoS que sobrecarregam plataformas até à indisponibilidade têm grande impacto nos negócios digitais, em especial nas áreas do comércio eletrónico e dos serviços online. Em 2024, os tempos médios de indisponibilidade das comunicações associados a ataques DDoS rondaram as oito horas, segundo o CNCS.

Para uma loja online ou um prestador de serviços digitais, oito horas de indisponibilidade são oito horas sem vendas, com clientes insatisfeitos e com danos reputacionais que se prolongam muito além do ataque em si.

Fraude com voz e vídeo clonados por IA

Uma ameaça emergente que ainda é subestimada pelas PMEs portuguesas: a IA generativa está a criar vídeos, áudios e imagens falsas convincentes para extorsão, fraude e manipulação. Em 2024, surgiram em Portugal os primeiros casos documentados de fraude com voz clonada por IA.

O esquema típico envolve uma chamada aparentemente legítima de um “diretor financeiro” ou “CEO” a solicitar uma transferência urgente. A voz é sintética mas indistinguível. O colaborador cumpre a instrução. O dinheiro desaparece. É um ataque que não exige qualquer intrusão técnica — apenas engenharia social potenciada por IA.

Porque as PMEs são alvos preferenciais

As PMEs valorizam mais a falha de medidas de cibersegurança como risco principal para a sua atividade, com 20% a identificá-la como preocupação central. Esta diferença face às grandes empresas pode decorrer da menor capacidade das PMEs para investir em cibersegurança robusta, tornando-as mais vulneráveis.

A realidade operacional de muitas PMEs portuguesas cria um conjunto de vulnerabilidades estruturais:

Ausência de equipa dedicada. A maioria das PMEs não tem um responsável de segurança informática. As decisões sobre tecnologia são tomadas pelo gestor de topo ou delegadas a um técnico generalista que acumula múltiplas funções.

Software desatualizado. A autenticação fraca, os sistemas sem correções de segurança e os privilégios administrativos excessivos continuam a ser a principal superfície de ataque nas PMEs. Sistemas com versões desatualizadas de WordPress, Windows ou software de gestão são portas de entrada conhecidas e amplamente exploradas.

Falta de formação dos colaboradores. O elo mais fraco na cadeia de segurança continua a ser humano. Um colaborador que não reconhece um email de phishing sofisticado, que reutiliza palavras-passe entre plataformas ou que usa redes Wi-Fi públicas para aceder a sistemas internos representa um risco imenso independentemente da qualidade da infraestrutura técnica.

Dependência de fornecedores vulneráveis. Em 2026, a segurança de uma empresa vale pelo elo mais fraco da sua cadeia. Quando um contabilista, fornecedor de hosting ou empresa parceira é comprometido, o atacante usa essa relação de confiança para chegar até à empresa — porque os emails são autênticos e as credenciais partilhadas são reais.

O quadro regulatório que já é exigível

Além dos riscos operacionais, as PMEs portuguesas enfrentam agora um enquadramento legal que torna a inação ainda mais custosa.

A Diretiva NIS2 entrou em vigor em Portugal a 3 de abril de 2026. As empresas abrangidas devem designar um responsável de cibersegurança e notificar o CNCS em 20 dias úteis. As multas podem chegar a 10 milhões de euros ou 2% do volume de negócios global para entidades essenciais.

A NIS2 não se aplica apenas a grandes empresas ou infraestruturas do Estado. Abrange um número significativo de PMEs que operam em setores considerados essenciais — energia, transportes, saúde, águas, infraestruturas digitais — e prestadores de serviços digitais com dimensão relevante. Muitas empresas ainda não verificaram se estão abrangidas.

O RGPD, em vigor há vários anos, estabelece igualmente obrigações claras: em caso de violação de dados pessoais, a empresa tem 72 horas para notificar a CNPD. A ausência de sistemas de deteção adequados significa, frequentemente, que as empresas nem sequer sabem que foram atacadas — quanto mais dentro do prazo exigido.

O que fazer: um plano de ação realista para PMEs

A boa notícia é que uma parte significativa dos ataques pode ser prevenida com medidas que não exigem grandes investimentos. O problema não está na complexidade das soluções — está na inércia.

  1. Autenticação multifator em todas as contas críticas. Email, sistemas de gestão, banca online, plataformas cloud. É a medida com maior retorno por euro investido em cibersegurança. Um segundo fator de autenticação bloqueia a esmagadora maioria dos ataques de roubo de credenciais.
  2. Backups automáticos, encriptados e testados. Não basta ter backups — é necessário testá-los regularmente. Um backup que nunca foi restaurado é um backup de confiabilidade desconhecida. Os backups devem estar em localização separada dos sistemas principais.
  3. Atualização sistemática de software. Manter sistemas operativos, aplicações e plugins atualizados elimina a maioria das vulnerabilidades conhecidas. Este processo deve ser automatizado sempre que possível.
  4. Formação regular dos colaboradores. Simulações de phishing, sessões de sensibilização e procedimentos claros para validação de pedidos financeiros por canais alternativos. A formação não precisa de ser cara — precisa de ser consistente.
  5. Segmentação da rede e princípio do mínimo privilégio. Cada colaborador deve ter acesso apenas aos sistemas e dados necessários para a sua função. A segmentação da rede limita o impacto de um ataque que consiga entrar.
  6. Plano de resposta a incidentes documentado. Saber o que fazer nas primeiras horas após detetar um ataque faz a diferença entre contenção e catástrofe. Este plano deve incluir contactos de emergência, procedimentos de isolamento de sistemas e protocolos de comunicação.
  7. Avaliação de segurança dos fornecedores. Exigir certificações como a ISO 27001, incluir cláusulas de cibersegurança nos contratos e verificar as práticas de segurança de parceiros críticos — especialmente aqueles que têm acesso aos sistemas internos da empresa.

Conclusão: a cibersegurança não é um custo, é uma condição de funcionamento

Os ataques cibernéticos passaram a ser uma certeza, não uma eventualidade. As empresas estão a ser atacadas diariamente. A questão deixou de ser “se” uma PME vai sofrer uma tentativa de ataque para passar a ser “quando” — e se vai estar preparada quando isso acontecer.

Em 2026, com a NIS2 em vigor, com prejuízos a atingir os 10 mil milhões de euros anuais em Portugal e com ataques cada vez mais automatizados e difíceis de detetar, ignorar a cibersegurança é uma decisão com consequências financeiras, legais e reputacionais que nenhuma PME pode suportar.

Investir em segurança não é um gasto extraordinário. É o custo de continuar a operar num mundo digital.

Categories: Tecnologia

Termos e Condições | Cidade Viva Portugal | Politica de Privacidade